É Possível Mudar Emoções Aprendidas Anos Atrás?
Se a memória não funciona como um arquivo e se recordar envolve reconstrução, surge uma pergunta inevitável: aquilo que foi aprendido no passado pode ser modificado? Essa questão ocupa posição central em algumas das discussões mais importantes da neurociência contemporânea. Afinal, grande parte da experiência humana é influenciada por aprendizagens construídas ao longo da vida. Medos, expectativas, crenças e padrões emocionais frequentemente surgem a partir de experiências que ocorreram muitos anos antes.
Durante muito tempo, a resposta predominante para essa pergunta foi relativamente conservadora. Acreditava-se que aprendizagens importantes permaneciam essencialmente estáveis após serem consolidadas. Novas experiências poderiam produzir conhecimentos adicionais, mas aquilo que havia sido aprendido originalmente continuaria existindo da mesma forma. Mudanças emocionais ocorreriam porque novas associações seriam construídas ao redor da aprendizagem antiga, não porque a aprendizagem original fosse modificada.
Essa explicação parecia compatível com diversos fenômenos observados na prática clínica e na pesquisa experimental. Entretanto, algumas observações começaram a
desafiar esse modelo. Em determinados casos, as mudanças pareciam profundas demais para serem explicadas apenas pela adição de novas aprendizagens. Algumas pessoas não apenas desenvolviam novas formas de lidar com determinadas situações. Pareciam modificar a própria maneira como essas situações eram percebidas.
Essas observações deram origem a uma questão fascinante. Talvez o cérebro não fosse capaz apenas de aprender coisas novas. Talvez também pudesse revisar algumas das aprendizagens que já existiam.
O Problema das Aprendizagens Persistentes
Uma das características mais intrigantes das emoções humanas é sua capacidade de permanecer ativas mesmo quando as circunstâncias mudam.
Uma pessoa que viveu experiências repetidas de rejeição pode continuar esperando rejeição muitos anos depois, mesmo estando cercada por relacionamentos seguros. Alguém que passou por períodos prolongados de insegurança pode continuar reagindo ao mundo como se estivesse permanentemente ameaçado. Da mesma forma, experiências de humilhação, abandono ou fracasso podem continuar influenciando percepções e comportamentos muito tempo após o desaparecimento das condições que originalmente deram origem a essas aprendizagens.
Esse fenômeno sugere que determinadas aprendizagens emocionais possuem considerável estabilidade. Uma vez estabelecidas, podem continuar organizando expectativas e interpretações durante longos períodos.
Ao mesmo tempo, observamos situações em que mudanças profundas realmente acontecem. Pessoas deixam de reagir emocionalmente da mesma forma a experiências que antes provocavam intenso sofrimento. Determinados medos desaparecem. Algumas crenças perdem sua força. Certas expectativas deixam de orientar a percepção da realidade.
O desafio científico passou a ser compreender exatamente o que muda nesses casos.
Aprendizagens São Modelos, Não Fotografias
Para responder a essa pergunta, é necessário compreender como o cérebro utiliza aquilo que aprende.
Durante muito tempo existiu uma tendência a imaginar aprendizagens como registros armazenados da experiência. Entretanto, a neurociência moderna sugere uma visão diferente. O cérebro parece utilizar experiências passadas para construir modelos sobre o funcionamento do mundo.
Esses modelos ajudam a responder perguntas importantes. O ambiente é seguro ou perigoso? As pessoas são confiáveis ou ameaçadoras? Determinadas situações exigem aproximação ou afastamento? O organismo possui recursos suficientes para lidar com os desafios que encontra?
Em vez de armazenar apenas acontecimentos específicos, o cérebro extrai regularidades e transforma essas regularidades em previsões.
Essa característica explica por que experiências passadas continuam influenciando situações futuras. O organismo não reage apenas ao que está acontecendo no presente. Reage também às expectativas construídas a partir daquilo que aprendeu anteriormente.
Sob essa perspectiva, emoções podem ser compreendidas como expressões de modelos aprendidos sobre a realidade.
Quando Um Modelo Deixa de Funcionar
Se aprendizagens funcionam como modelos utilizados para interpretar o mundo, então sua utilidade depende da capacidade de produzir previsões adequadas.
Enquanto um modelo continua explicando satisfatoriamente a experiência, existe pouca razão para modificá-lo. O cérebro tende a preservar aquilo que considera útil. Afinal, revisar constantemente conhecimentos funcionais seria ineficiente e potencialmente perigoso.
O problema surge quando a realidade começa a fornecer informações incompatíveis com as previsões produzidas por esse modelo.
Uma pessoa espera rejeição e encontra acolhimento.
Espera fracasso e encontra competência.
Espera perigo e encontra segurança.
Nesses momentos, surge uma discrepância entre aquilo que era previsto e aquilo que efetivamente acontece.
Como vimos no artigo anterior sobre erro de previsão, discrepâncias desse tipo representam um dos principais motores da aprendizagem. Elas sinalizam ao cérebro que talvez seja necessário revisar a forma como determinada situação está sendo interpretada.
E é justamente nesse ponto que a discussão sobre atualização da memória começa a ganhar relevância.
Nem Toda Mudança É Uma Atualização
Quando observamos mudanças emocionais na prática, é importante reconhecer que nem todas acontecem da mesma forma. Durante décadas, pesquisadores perceberam que uma pessoa pode aprender algo novo sem necessariamente modificar aquilo que aprendeu anteriormente.
Imagine alguém que desenvolveu medo de cães após uma experiência desagradável na infância. Ao longo da vida, essa pessoa pode aprender que muitos cães são dóceis, previsíveis e seguros. Pode inclusive conviver tranquilamente com eles durante anos.
Entretanto, em algumas situações, o medo original continua existindo. Ele permanece silencioso, mas não desaparece completamente. Em momentos de estresse, surpresa ou vulnerabilidade, pode reaparecer com intensidade inesperada.
Esse fenômeno levou muitos pesquisadores a concluir que novas aprendizagens frequentemente não substituem as antigas. Elas passam a coexistir com elas.
Sob essa perspectiva, mudar não significa necessariamente atualizar. Muitas vezes significa adicionar novas informações ao sistema sem alterar a estrutura original que deu origem à resposta emocional.
Essa distinção é fundamental porque sugere que existem diferentes profundidades de mudança psicológica.
Quando a Aprendizagem Antiga Continua Ativa
Uma das razões pelas quais determinadas emoções parecem tão persistentes é que o cérebro tende a preservar aprendizagens consideradas importantes para sobrevivência.
Do ponto de vista evolutivo, isso faz sentido. Um organismo que descartasse rapidamente informações relacionadas a perigo poderia tornar-se vulnerável a ameaças reais. Como consequência, aprendizagens emocionais relevantes costumam apresentar considerável resistência à mudança.
Essa característica ajuda a compreender por que algumas pessoas continuam reagindo emocionalmente a situações que racionalmente sabem não representar risco. O sistema emocional não está operando apenas com base em informações atuais. Está operando com base em modelos construídos ao longo de experiências anteriores.
Em muitos casos, esses modelos foram úteis em determinado momento da vida. O problema surge quando continuam ativos mesmo após deixarem de refletir adequadamente a realidade presente.
Nessas circunstâncias, o cérebro enfrenta um desafio adaptativo. Precisa decidir se mantém a aprendizagem antiga ou se vale a pena revisá-la.
O Que Torna Uma Atualização Possível?
Se o cérebro realmente pode atualizar aprendizagens antigas, então essa atualização não pode ocorrer de maneira aleatória. Deve existir algum mecanismo capaz de sinalizar quando uma revisão se torna necessária.
É exatamente aqui que os conceitos desenvolvidos nos artigos anteriores começam a convergir.
Primeiro vimos que emoções são influenciadas por aprendizagens.
Depois vimos que essas aprendizagens funcionam como modelos utilizados para prever a realidade.
Também vimos que o cérebro detecta discrepâncias entre aquilo que espera encontrar e aquilo que efetivamente encontra. Esse processo foi chamado de erro de previsão.
Agora começamos a perceber a conexão entre esses elementos.
Quando uma aprendizagem antiga é ativada e a realidade produz uma informação incompatível com aquilo que era esperado, o cérebro recebe um sinal de que seu modelo talvez precise ser revisado.
Em outras palavras, a atualização parece depender do encontro entre uma previsão antiga e uma experiência que a contradiz de maneira significativa.
Sem ativação da aprendizagem, não existe o que revisar.
Sem discrepância, não existe motivo para revisar.
A combinação entre esses fatores parece representar uma condição fundamental para que mudanças mais profundas se tornem possíveis.
Entre Estabilidade e Plasticidade
A existência desse mecanismo resolve um problema que acompanhou a neurociência durante décadas.
Por um lado, o cérebro precisa preservar conhecimentos importantes. Por outro, precisa manter capacidade de adaptação diante de novas evidências.
Se fosse completamente rígido, ficaria preso a modelos ultrapassados.
Se fosse completamente flexível, perderia a estabilidade necessária para aprender.
A solução encontrada pela evolução parece ter sido um sistema que permanece estável na maior parte do tempo, mas que pode tornar-se temporariamente mais plástico quando determinadas condições são atendidas.
Essa característica permite que aprendizagens relevantes sejam preservadas sem impedir atualizações quando a realidade demonstra que elas deixaram de funcionar adequadamente.
Talvez seja justamente esse equilíbrio entre estabilidade e mudança que torne a adaptação humana tão eficiente.
A Pergunta Que Mudou a Neurociência
Ao longo dos anos 1990 e início dos anos 2000, pesquisadores começaram a investigar uma hipótese que parecia quase herética para os modelos tradicionais da memória.
E se a reativação de uma aprendizagem não significasse apenas recuperá-la?
E se, em determinadas circunstâncias, a reativação também a tornasse temporariamente suscetível à modificação?
Essa pergunta desencadearia uma série de experimentos que acabariam transformando profundamente a forma como compreendemos memória, aprendizagem e mudança emocional.
Pela primeira vez, começava a surgir uma explicação biologicamente plausível para a atualização de aprendizagens antigas.
Uma explicação que não dependia apenas da criação de novas associações paralelas, mas da possibilidade de modificar a própria aprendizagem previamente estabelecida.
E foi exatamente essa linha de investigação que conduziu à descoberta de um dos fenômenos mais importantes da neurociência contemporânea.
Conclusão
Durante muito tempo acreditou-se que aprendizagens emocionais consolidadas permaneciam essencialmente imutáveis. As evidências acumuladas nas últimas décadas começaram a desafiar essa visão. Embora muitas mudanças ocorram por meio da aquisição de novas aprendizagens, alguns fenômenos parecem indicar algo mais profundo: a possibilidade de atualização de modelos previamente estabelecidos.
Ao longo deste artigo vimos que emoções são influenciadas por aprendizagens que funcionam como previsões sobre a realidade. Vimos também que essas previsões tendem a ser preservadas enquanto continuam explicando adequadamente a experiência. Quando deixam de funcionar, surge a necessidade de adaptação.
Talvez a principal questão seja que mudar não significa apenas aprender algo novo. Em determinadas circunstâncias, pode significar revisar aquilo que já foi aprendido.
Essa possibilidade nos conduz diretamente ao próximo artigo da Biblioteca Científica. Se o cérebro pode atualizar aprendizagens antigas, precisamos compreender o que acontece quando uma memória do passado entra em contato com uma experiência do presente. É exatamente essa interseção que exploraremos em HC-20 — Quando o Passado Encontra o Presente.
FAQ
O cérebro realmente pode atualizar aprendizagens antigas?
As evidências científicas atuais sugerem que determinadas aprendizagens podem ser modificadas quando são reativadas sob condições específicas e entram em contato com informações incompatíveis com aquilo que previam.
Aprender algo novo é o mesmo que atualizar uma aprendizagem antiga?
Não. Em muitos casos, novas aprendizagens apenas coexistem com as antigas. Atualização envolve a modificação do modelo previamente estabelecido.
Por que algumas emoções persistem durante tantos anos?
Porque determinadas aprendizagens emocionais foram construídas para orientar previsões sobre o mundo e tendem a ser preservadas enquanto continuam parecendo úteis ao cérebro.
O que são modelos emocionais?
São padrões de interpretação construídos a partir da experiência. Eles ajudam o cérebro a prever acontecimentos futuros e orientar respostas emocionais.
O erro de previsão participa desse processo?
Sim. Quando a realidade contradiz de forma relevante aquilo que era esperado, surge um sinal de que determinado modelo pode precisar ser revisado.
Toda discrepância produz mudança?
Não. Muitas discrepâncias são ignoradas ou interpretadas como exceções. Para ocorrer atualização, geralmente é necessário que a informação tenha relevância suficiente para desafiar o modelo existente.
Isso significa que memórias podem ser apagadas?
Não. Atualização não significa apagamento. Em muitos casos, os fatos continuam sendo lembrados, mas sua influência emocional pode ser modificada.
Este tema tem relação com a reconsolidação da memória?
Sim. A possibilidade de atualização de aprendizagens antigas é um dos fundamentos que levaram à descoberta da reconsolidação da memória.
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Fontes recomendadas
PubMed https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
National Center for Biotechnology Information https://www.ncbi.nlm.nih.gov
American Psychological Association https://www.apa.org
Society for Neuroscience https://www.sfn.org
Sobre o Autor
Dr. Ismael Oliveira é psicanalista clínico, hipnoterapeuta científico, pesquisador em neurociências e fundador da Biblioteca Científica. Possui pós-graduação em Hipnose Científica e Terapias Baseadas em Evidências pela Sociedade Brasileira de Hipnose (SBH) e dedica seus estudos à memória emocional, cérebro preditivo e reconsolidação da memória.
Referências
LEDOUX, Joseph. The Emotional Brain. Simon & Schuster.
KANDEL, Eric. In Search of Memory. W. W. Norton.
SQUIRE, Larry R.; KANDEL, Eric R. Memory: From Mind to Molecules. Scientific American Library.
BARRETT, Lisa Feldman. How Emotions Are Made. Houghton Mifflin Harcourt.
FRISTON, Karl. The free-energy principle: a unified brain theory? Nature Reviews Neuroscience.
NADER, Karim. Reconsolidation and the Dynamic Nature of Memory. Nature Reviews Neuroscience.
LENT, Roberto. Cem Bilhões de Neurônios? Conceitos Fundamentais de Neurociência. Atheneu.