Quando Algo Que Parecia Superado Volta
Uma pessoa passa meses sem apresentar uma resposta que durante anos fez parte de sua vida. Consegue enfrentar situações anteriormente evitadas, percebe mudanças na maneira como reage e começa a acreditar que determinado padrão ficou definitivamente para trás. Então, diante de uma situação inesperada, depois de um período de estresse ou simplesmente com a passagem do tempo, uma resposta antiga reaparece. O medo retorna, uma reação defensiva volta a ocorrer ou um comportamento que parecia abandonado novamente se torna disponível. A interpretação costuma ser imediata: “voltei ao começo”. Entretanto, a ciência da aprendizagem mostra que o reaparecimento de uma resposta não permite, por si só, concluir que tudo aquilo que foi aprendido depois desapareceu.
Esse problema é particularmente importante porque tendemos a imaginar mudança como substituição linear. Primeiro existiria o padrão antigo; depois surgiria um padrão novo; finalmente, o segundo ocuparia o lugar do primeiro. Em alguns processos de aprendizagem, porém, novas experiências não precisam eliminar completamente representações anteriores. Aprendizagens distintas podem permanecer disponíveis e competir pela expressão dependendo do contexto, da passagem do tempo, das pistas presentes e da história posterior do organismo. Nesses casos, aquilo que observamos em determinado momento depende não apenas do que foi aprendido por último, mas de qual aprendizagem está sendo recuperada e possui maior controle sobre a resposta naquela condição.
Isso não significa que padrões antigos inevitavelmente retornarão nem que mudanças psicológicas sejam sempre frágeis. Significa algo mais específico: ausência de uma resposta não é equivalente a demonstração de que a aprendizagem que anteriormente a sustentava deixou de existir. Essa distinção é uma das contribuições mais importantes da pesquisa experimental sobre extinção e retorno de respostas aprendidas.
Extinção Não É Simplesmente Apagamento
Os estudos de extinção oferecem um dos modelos experimentais mais importantes para compreender esse fenômeno. Em um procedimento típico de condicionamento, um estímulo passa a predizer determinada consequência. Posteriormente, esse estímulo é apresentado repetidamente sem a consequência anteriormente esperada, e a resposta condicionada tende a diminuir. Durante muito tempo seria intuitivo interpretar essa redução como enfraquecimento ou apagamento da associação original. Entretanto, vários fenômenos demonstram que a aprendizagem anterior pode continuar disponível.
Uma interpretação influente é que a extinção frequentemente envolve nova aprendizagem. O organismo aprende que, nas condições atuais, o estímulo já não prediz a consequência da mesma maneira. A relação anterior não precisa desaparecer para que essa nova informação passe a controlar o comportamento. Isso cria uma situação na qual duas histórias podem coexistir: uma aprendizagem anterior relacionando determinado estímulo a uma consequência e uma aprendizagem posterior indicando que essa consequência não ocorre sob determinadas condições.
É importante não transformar essa formulação em regra universal para qualquer mudança emocional. Extinção é um paradigma experimental específico, e transformação clínica pode envolver diversos mecanismos, incluindo atualização de expectativas, aprendizagem inibitória, reavaliação, aquisição de habilidades, alterações ambientais e, sob condições particulares, processos relacionados à reconsolidação. Ainda assim, a extinção demonstra um princípio extremamente útil: uma resposta pode diminuir de maneira significativa sem que a informação anterior tenha necessariamente sido apagada.
A Passagem do Tempo Pode Alterar Qual Aprendizagem É Recuperada
Um dos fenômenos clássicos que evidenciam essa persistência é a recuperação espontânea. Depois que uma resposta condicionada diminui durante a extinção, parte dela pode reaparecer após um intervalo de tempo. O termo “espontânea” não significa que a resposta surge sem história ou sem mecanismo. Refere-se ao fato de que a passagem do tempo entre a extinção e um novo teste pode favorecer a recuperação parcial da resposta anteriormente reduzida.
Esse fenômeno mostra que o tempo não funciona apenas como uma linha neutra na qual aprendizagens permanecem exatamente como estavam ao final de uma experiência. A disponibilidade relativa de diferentes aprendizagens pode mudar. Uma resposta reduzida no final de uma sessão experimental pode estar parcialmente presente quando o organismo é novamente testado depois de determinado intervalo.
Em seres humanos, isso ajuda a evitar uma conclusão excessivamente rígida sobre oscilações posteriores à mudança. Se determinada reação reaparece depois de semanas ou meses, não podemos inferir automaticamente que a aprendizagem nova desapareceu. Dependendo do processo envolvido, informações antigas e novas podem continuar disponíveis e apresentar forças relativas diferentes ao longo do tempo. O comportamento observado em um instante é uma amostra daquilo que o sistema recuperou naquela condição, não um inventário completo de tudo que permanece aprendido.
Mudar de Contexto Também Pode Fazer Uma Resposta Voltar
O TE-52 mostrou que aprendizagens podem ser sensíveis ao contexto. Essa propriedade torna-se especialmente importante no fenômeno conhecido como renovação. Uma resposta pode ser adquirida em determinado contexto, reduzida por extinção em outro e reaparecer quando o organismo é testado fora do contexto em que a extinção aconteceu. Diferentes configurações experimentais produzem diferentes formas de renovação, mas o princípio central permanece: a aprendizagem construída durante a extinção pode apresentar maior dependência contextual do que a aprendizagem anterior.
Isso oferece uma explicação elegante para situações nas quais uma pessoa demonstra mudança consistente em determinado ambiente e encontra maior dificuldade quando as condições mudam. O consultório, a presença de alguém confiável, uma rotina específica ou determinado estado interno podem fornecer pistas que favorecem a recuperação da aprendizagem mais recente. Em outra configuração, pistas relacionadas à história anterior podem adquirir maior peso.
Não precisamos imaginar que o cérebro “esqueceu” a mudança ao atravessar uma porta. Contexto participa da recuperação porque ajuda o sistema a determinar qual relação aprendida é mais adequada para a situação atual. Se duas aprendizagens diferentes foram construídas sob condições diferentes, características contextuais podem funcionar como informação para resolver essa ambiguidade.
Novas Experiências Também Podem Reativar Expectativas Antigas
Outro fenômeno experimental relevante é a reinstalação. Depois que uma resposta condicionada foi reduzida por extinção, a exposição posterior à consequência aversiva, mesmo sem o estímulo condicionado original, pode favorecer o reaparecimento da resposta quando esse estímulo é novamente apresentado. Em termos simples, encontrar novamente aquilo que anteriormente constituía uma ameaça pode alterar a maneira como o organismo interpreta pistas que haviam deixado de provocar a mesma resposta.
Imagine alguém que, depois de experiências negativas, desenvolveu expectativa intensa de rejeição e posteriormente construiu relações nas quais aprendeu que proximidade não termina necessariamente em abandono. Uma nova rejeição significativa não demonstra que as experiências posteriores foram inúteis. Mas ela fornece informação nova sobre a possibilidade daquele resultado e pode aumentar novamente a disponibilidade de previsões construídas anteriormente. O sistema não possui obrigação de preservar uma aprendizagem apenas porque ela é psicologicamente mais confortável; ele continua atualizando suas estimativas a partir daquilo que acontece.
Esse exemplo também mostra por que a linguagem de “eliminar definitivamente qualquer gatilho” é cientificamente problemática. O ambiente continua produzindo experiências. Algumas delas confirmam novas aprendizagens; outras podem fornecer evidências compatíveis com previsões antigas. Um sistema adaptativo precisa permanecer sensível a ambas.
Estresse Pode Mudar as Condições em Que Respondemos
Na vida cotidiana, o retorno de padrões antigos é frequentemente associado a períodos de estresse. Essa relação exige cuidado, porque seria simplista afirmar que “o estresse faz o cérebro voltar ao passado”. O estresse modifica múltiplos sistemas fisiológicos e cognitivos e pode afetar atenção, memória, controle comportamental e seleção de respostas de maneiras dependentes de intensidade, duração e contexto. Sob determinadas condições, comportamentos mais habituais ou respostas previamente bem estabelecidas podem ganhar maior influência.
Isso ajuda a compreender por que uma pessoa pode apresentar grande flexibilidade durante períodos relativamente previsíveis e responder de maneira mais automática quando múltiplas demandas surgem simultaneamente. Uma nova aprendizagem pode continuar existindo, mas sua recuperação e utilização competem com outras tendências que possuem longa história de reforçamento.
Ao mesmo tempo, nem todo retorno de um comportamento durante estresse representa recuperação de uma memória antiga no sentido experimental utilizado nos estudos de condicionamento. O comportamento humano é determinado por múltiplos processos. Fadiga, redução de recursos atencionais, mudanças ambientais, privação de sono, alterações de rotina e novas contingências também podem modificar aquilo que observamos. “O padrão voltou” descreve um fenômeno; não identifica automaticamente seu mecanismo.
Reaparecer Não É Necessariamente Voltar ao Ponto Inicial
Essa talvez seja a distinção mais importante deste artigo. Quando uma resposta antiga reaparece, a pessoa pode interpretar o episódio como prova de que todo o progresso anterior era ilusório. Essa conclusão não decorre necessariamente dos fatos. Se novas aprendizagens continuam disponíveis, o sistema depois do reaparecimento não é idêntico ao sistema existente antes da mudança.
Uma pessoa que passou anos evitando determinada situação e posteriormente conseguiu enfrentá-la diversas vezes possui uma história de aprendizagem que antes não existia. Se o medo reaparece em uma ocasião, a experiência anterior de enfrentamento não é apagada retroativamente. Ela continua fazendo parte daquilo que foi aprendido. A questão passa a ser qual informação está controlando a resposta naquele momento e quais condições favoreceram sua recuperação.
Isso não significa minimizar recaídas reais. Em alguns casos, padrões antigos podem voltar a exercer controle significativo e persistente sobre comportamento e sofrimento. O ponto científico é outro: um episódio de retorno e uma restauração completa do padrão anterior não são fenômenos equivalentes. Avaliar mudança exige observar intensidade, frequência, duração, contexto e capacidade de recuperar novamente as respostas construídas posteriormente.
Padrões Antigos e Novos Podem Competir Pelo Comportamento
Quando diferentes aprendizagens permanecem disponíveis, aquilo que observamos em determinado momento pode refletir uma competição entre informações adquiridas em períodos diferentes. Uma situação pode recuperar tanto a previsão antiga quanto aquilo que foi aprendido posteriormente. O comportamento resultante dependerá de fatores como contexto, semelhança com experiências anteriores, consequências esperadas, estado do organismo e força relativa das diferentes aprendizagens. Isso ajuda a compreender por que a mudança psicológica nem sempre apresenta uma trajetória perfeitamente linear, mesmo quando houve aprendizagem genuína.
Considere alguém que durante anos evitou conflitos porque aprendeu que discordar produz rejeição. Posteriormente, essa pessoa vive experiências nas quais expressa desacordo e descobre que relações podem permanecer estáveis apesar da divergência. A nova aprendizagem não precisa apagar a anterior. Diante de uma discussão futura, diferentes previsões podem tornar-se disponíveis: “se eu discordar, serei rejeitado” e “posso discordar sem necessariamente perder essa relação”. Dependendo das características da situação, uma delas pode exercer maior influência sobre aquilo que a pessoa sente e faz.
Essa competição também ajuda a explicar por que uma resposta antiga pode reaparecer rapidamente e depois voltar a diminuir. Se a aprendizagem nova tivesse sido completamente destruída, seria necessário construí-la novamente desde o início. Em muitos casos, porém, aquilo que havia sido aprendido pode voltar a ser recuperado quando as condições mudam ou quando a pessoa encontra novamente informações compatíveis com a aprendizagem mais recente. O sistema não necessariamente alterna entre “mudou” e “não mudou”; diferentes aprendizagens podem permanecer disponíveis com pesos diferentes ao longo do tempo.
Um Episódio de Retorno Não É o Mesmo Que Uma Recaída Persistente
A palavra recaída frequentemente reúne fenômenos muito diferentes. Uma pessoa pode apresentar uma resposta antiga durante alguns minutos, voltar a evitar determinada situação durante alguns dias ou restabelecer durante meses um padrão semelhante àquele existente anteriormente. Colocar todos esses acontecimentos na mesma categoria obscurece informações importantes sobre aquilo que realmente ocorreu.
Uma avaliação mais precisa precisa considerar pelo menos a intensidade, frequência, duração e extensão do retorno. Também importa saber se a pessoa continua conseguindo recuperar aquilo que havia aprendido, se o padrão reaparece apenas em determinadas condições ou volta a dominar grande parte das situações relacionadas ao problema. Uma resposta isolada diante de circunstâncias excepcionalmente difíceis possui significado diferente de uma retomada progressiva e persistente de comportamentos que haviam diminuído.
Essa distinção também impede uma visão binária da transformação emocional. Se sucesso significasse nunca mais apresentar qualquer componente de uma resposta antiga, praticamente toda oscilação seria interpretada como fracasso. Por outro lado, afirmar que qualquer retorno “faz parte do processo” poderia minimizar deteriorações clinicamente relevantes. O caminho mais rigoroso está entre esses extremos: o reaparecimento precisa ser interpretado pela sua trajetória e pelas condições em que ocorre.
A Interpretação do Reaparecimento Também Pode Alterar o Que Acontece Depois
O retorno de uma resposta não é apenas consequência de aprendizagens anteriores. Ele próprio constitui uma nova experiência capaz de produzir aprendizagem. Isso significa que aquilo que acontece depois do reaparecimento pode modificar sua trajetória.
Imagine alguém que não apresenta uma crise de pânico há meses e, inesperadamente, experimenta novamente sintomas intensos. Se esse episódio passa a ser interpretado como evidência de que “nada mudou”, a pessoa pode começar a monitorar sensações corporais, evitar situações, buscar constantemente sinais de uma nova crise e reorganizar sua rotina em torno da possibilidade de recorrência. Essas respostas podem fornecer novas oportunidades para fortalecer expectativas de ameaça e comportamentos de proteção. O episódio inicial, portanto, pode tornar-se parte de um novo ciclo de aprendizagem.
Uma trajetória diferente é possível quando o reaparecimento não reorganiza toda a experiência em torno do padrão antigo. A pessoa pode reconhecer que uma resposta conhecida ocorreu sob determinadas condições e continuar utilizando aprendizagens construídas posteriormente. Isso não exige ignorar sintomas nem repetir afirmações positivas. Significa que a resposta ao retorno também produz informação para o sistema.
Por essa razão, a interpretação de uma oscilação possui consequências que ultrapassam o episódio imediato. “Isso voltou, portanto nunca mudei” e “isso apareceu novamente, mas preciso observar o que acontece daqui para frente” organizam comportamentos posteriores muito diferentes. A primeira interpretação pode transformar um evento localizado em evidência global sobre a própria capacidade de mudança; a segunda preserva a possibilidade de avaliar o acontecimento sem apagar toda a história construída depois do padrão original.
Prevenir Recaídas Não Significa Garantir Que Nada Antigo Reapareça
A expressão prevenção de recaída pode sugerir que o objetivo seria impedir definitivamente qualquer manifestação futura de respostas anteriores. Em sistemas de aprendizagem capazes de preservar informações e responder a mudanças ambientais, essa garantia não é realista. Uma abordagem mais consistente consiste em reduzir condições que favorecem retorno persistente e aumentar a capacidade de reconhecer, recuperar e utilizar aprendizagens relevantes quando respostas antigas reaparecem.
Isso inclui compreender quais situações ainda recuperam fortemente o padrão anterior, ampliar a experiência com novas respostas, reduzir dependências excessivas de contextos específicos e reconhecer sinais de que comportamentos antigos estão voltando a organizar progressivamente a vida cotidiana. Em diferentes intervenções psicológicas, estratégias de prevenção de recaída podem assumir formas distintas porque os mecanismos envolvidos também diferem.
Essa compreensão é especialmente importante quando falamos de aprendizagem emocional. O objetivo não precisa ser construir um cérebro incapaz de produzir novamente medo, ansiedade, tristeza ou respostas defensivas associadas à história pessoal. Além de biologicamente implausível, isso seria pouco adaptativo. O problema clínico não é a existência de qualquer resposta antiga, mas o grau em que ela volta a controlar percepção, comportamento e escolhas apesar das informações adquiridas posteriormente.
Nem Todo Reaparecimento Possui o Mesmo Mecanismo
Recuperação espontânea, renovação e reinstalação são modelos importantes porque demonstram experimentalmente que respostas reduzidas podem retornar. Entretanto, seria um erro utilizar esses fenômenos como diagnóstico retrospectivo de tudo aquilo que acontece na vida cotidiana. Se alguém apresenta novamente ansiedade depois de meses, não podemos afirmar apenas pela observação que ocorreu “recuperação espontânea”. Se uma reação aparece durante uma viagem, não podemos concluir automaticamente que se trata de “renovação contextual”.
Esses conceitos descrevem fenômenos definidos sob condições experimentais específicas. Na clínica e na vida cotidiana, múltiplos fatores podem produzir resultados superficialmente semelhantes. A pessoa pode estar enfrentando uma situação objetivamente mais difícil, ter encontrado novas experiências adversas, modificado comportamentos de enfrentamento, interrompido práticas que sustentavam determinada habilidade ou estar sob condições fisiológicas diferentes. Em alguns casos, o que parece retorno do padrão anterior pode até representar uma resposta nova a circunstâncias novas.
Essa cautela é essencial para manter a ponte entre ciência básica e aplicação clínica sem transformar conceitos experimentais em explicações universais. Os paradigmas de aprendizagem fornecem modelos para compreender possibilidades, não marcadores clínicos capazes de revelar automaticamente qual mecanismo está operando em cada indivíduo.
Mudança Não Precisa Apagar a História Para Ser Real
Chegamos então a uma conclusão que atravessa todo este núcleo. A transformação psicológica não precisa ser definida pela eliminação completa daquilo que foi aprendido anteriormente. Um sistema capaz de mudar continua sendo um sistema que possui história. Experiências anteriores podem permanecer representadas mesmo depois de novas aprendizagens modificarem profundamente a maneira como a pessoa responde no presente.
Isso explica por que a presença ocasional de uma resposta antiga não constitui, isoladamente, evidência de fracasso. Depois da mudança, o organismo possui informações que antes não possuía. Viveu outras experiências, construiu outras previsões e desenvolveu outras possibilidades de resposta. Mesmo quando uma aprendizagem antiga volta a exercer influência, ela pode agora competir com uma história posterior que também faz parte do sistema.
A diferença entre antes e depois pode estar justamente nessa competição. Antes, determinada previsão talvez fosse a única explicação disponível ou possuísse domínio quase absoluto sobre a resposta. Depois, outras aprendizagens podem limitar sua aplicação, permitir discriminações mais precisas ou favorecer recuperação mais rápida de respostas alternativas. A mudança não precisa tornar o passado inacessível; pode reduzir o monopólio que ele exercia sobre o presente.
O Retorno de Um Padrão Também Testa a Estabilidade da Mudança
Compreender por que respostas antigas podem reaparecer nos leva ao problema seguinte. Se diferentes aprendizagens continuam disponíveis, contextos podem mudar, experiências adversas podem ocorrer e estados fisiológicos podem alterar aquilo que é recuperado, então uma transformação duradoura não pode depender apenas da ausência permanente de qualquer resposta antiga.
Precisamos perguntar o que permite que novas aprendizagens continuem influenciando comportamento apesar da passagem do tempo, da variação dos contextos e da competição com aquilo que foi aprendido anteriormente. Essa pergunta é diferente daquela respondida no TE-51. Ali examinamos como uma aprendizagem recém-adquirida ganha estabilidade por meio de processos relacionados à consolidação. Agora o problema é mais amplo: como uma transformação já construída permanece funcional dentro de um organismo que continua vivendo, aprendendo e encontrando condições diferentes?
Conclusão
Padrões antigos podem reaparecer porque mudança não significa necessariamente apagamento da aprendizagem anterior. Estudos de extinção mostram que respostas reduzidas podem retornar depois da passagem do tempo, de mudanças contextuais ou de novas experiências relacionadas à consequência anteriormente esperada. Recuperação espontânea, renovação e reinstalação demonstram, em condições experimentais, que aquilo que deixou de controlar o comportamento pode continuar disponível.
Esses fenômenos não significam que toda mudança seja temporária. Também não autorizam concluir que qualquer oscilação cotidiana seja produzida pelos mesmos mecanismos observados em laboratório. Eles mostram algo mais fundamental: o comportamento atual pode refletir competição entre diferentes aprendizagens construídas ao longo da história.
Por isso, reaparecimento e retorno ao ponto inicial não são sinônimos. Uma resposta antiga pode ocorrer sem eliminar aquilo que foi aprendido posteriormente. O que acontece depois desse retorno também importa: novas respostas podem recuperar e fortalecer aprendizagens recentes, enquanto evitação, interpretações catastróficas ou novas experiências adversas podem alterar novamente aquilo que o sistema espera.
A questão deixa então de ser como impedir que qualquer vestígio do passado volte a aparecer. A pergunta cientificamente mais interessante é outra: o que permite que uma mudança continue organizada e disponível mesmo quando o sistema encontra condições capazes de favorecer respostas anteriores?
É essa pergunta que nos leva ao TE-54 — Da Mudança à Estabilidade: Como o Cérebro Mantém Novas Aprendizagens.
FAQ
O que significa recaída emocional?
Recaída emocional pode descrever o retorno significativo de respostas, comportamentos ou padrões que haviam diminuído depois de um período de mudança. Entretanto, o termo reúne fenômenos diferentes, e um episódio isolado de reaparecimento não deve ser automaticamente considerado uma recaída completa.
Por que um padrão antigo pode voltar mesmo depois de uma mudança real?
Porque novas aprendizagens nem sempre eliminam aquilo que foi aprendido anteriormente. Dependendo do mecanismo envolvido, aprendizagens antigas e novas podem permanecer disponíveis, e fatores como contexto, passagem do tempo e novas experiências podem alterar qual delas exerce maior influência sobre a resposta atual.
O que é recuperação espontânea?
Recuperação espontânea é o reaparecimento parcial de uma resposta previamente reduzida depois da passagem do tempo. É um fenômeno clássico observado em estudos de extinção e demonstra que a redução de uma resposta não significa necessariamente que a aprendizagem anterior tenha sido apagada.
O que é renovação?
Renovação é o retorno de uma resposta previamente reduzida quando ocorre uma mudança relevante de contexto. O fenômeno demonstra que determinadas aprendizagens construídas durante a extinção podem apresentar dependência contextual.
O que é reinstalação?
Reinstalação é o reaparecimento de uma resposta condicionada depois que o organismo volta a encontrar a consequência que anteriormente estava associada ao estímulo, mesmo que essa consequência tenha sido apresentada separadamente. Ela constitui outra evidência de que aprendizagens anteriores podem permanecer disponíveis depois da extinção.
Estresse pode fazer padrões antigos reaparecerem?
Pode contribuir em determinadas circunstâncias, mas seus efeitos dependem de intensidade, duração, contexto e características individuais. O estresse influencia diferentes sistemas envolvidos em memória e comportamento, mas não constitui uma explicação universal para qualquer retorno de respostas antigas.
Se um comportamento antigo reapareceu, significa que todo o progresso foi perdido?
Não necessariamente. Uma resposta antiga pode reaparecer enquanto aprendizagens posteriores continuam disponíveis. É necessário observar frequência, intensidade, duração, contexto e capacidade de recuperar novamente as respostas construídas depois.
Qual é a diferença entre um reaparecimento e uma recaída persistente?
Um reaparecimento pode ser pontual e dependente de determinadas condições. Uma recaída persistente envolve retomada mais duradoura ou abrangente de um padrão anterior. Avaliar essa diferença exige acompanhar a trajetória da resposta ao longo do tempo.
Padrões antigos precisam ser apagados para ocorrer uma transformação duradoura?
Não. Mudança pode envolver novas aprendizagens que restringem, competem com ou modificam a influência de aprendizagens anteriores. Uma transformação pode ser significativa mesmo que elementos da história anterior continuem representados no sistema.
Links Internos
• Como Acontece a Atualização Emocional?
• Reconsolidação Aplicada: Quando Uma Memória Pode Ser Atualizada
• Como o Cérebro Integra Memórias Antigas e Novas
Links Externos
PubMed
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
SciELO Brasil
https://www.scielo.br
Biblioteca Virtual em Saúde (BVS)
https://bvsalud.org
Nature Reviews Neuroscience
https://www.nature.com/nrn/
Sobre o Autor
Dr. Ismael Oliveira é psicanalista clínico, hipnoterapeuta científico e pesquisador em neurociências. É fundador da Biblioteca Científica e desenvolve estudos sobre cérebro preditivo, memória emocional, identidade, aprendizagem emocional e atualização de modelos psicológicos. Sua produção busca integrar evidências da neurociência contemporânea com aplicações clínicas voltadas à compreensão e transformação do sofrimento humano.
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